ESCREVER- SENA SIQUEIRA

Juntar, Juntar, Juntar ...
Juntar letras.
Juntar palavras.
Juntar frases, períodos, páragrafos, capítulos, ... Um livro. Uma Vida.

Juntar.
Juntar estrofes. Rimas. Sem rima.
Métrica. Sem métrica.
Compasso
Com passo
Sem passo.

Pensamentos
e
Sentimentos.

Juntar
Razão
e
Emoção
e
Sensação
e
Intuição.

Poesia é intuição.
Prosa é razão.
Poesia é emoção.
Prosa é sensação.
Sensação: é prosa? só? É poesia? E razão? E intuição?

Sensação
Razão
Emoção
Intuição
É tudo prosa. Tudo é poesia.
É ser. É viver.
É escrever.
É salvação.

Sena Siqueira (escritora brasiliense)
fonte: Recanto das Letras
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/3322413

PASQUALE CIPRO NETO - Os centavos e a porcentagem

Há alguns anos, a Fuvest exigiu uma conta simples: o quadrado de 10%. Sabe qual foi a resposta mais votada? 

Estava na capa de um site, ontem: 90% dos alunos do 9º ano das escolas públicas não sabem fazer contas com centavos. No mesmo site, na seção de economia, lia-se isto: "Prévia da inflação tem alta de 6,56% no ano e fecha acima da meta".

Pois bem. Os pequenos não sabem lidar com centavos, e os grandes não sabem lidar com porcentagem. A julgar pelo que muitas vezes se ouve no rádio e na TV, não são poucos os apresentadores que não sabem que centavo é uma de cem partes iguais em que se dividem algumas moedas (a nossa, no caso). Não fosse assim, não ouviríamos com certa frequência algo como "O dólar fechou cotado a um real e setecentos e noventa e quatro centavos" (R$ 1,794). Pois é, caro leitor, até Pedro Bó sabe que um real tem cem centavos, de modo que setecentos e noventa e quatro centavos de real correspondem a R$ 7,94 (sete reais e noventa e quatro centavos). Se o dólar fechou a um real e setecentos e noventa e quatro centavos, acabou o dia a R$ 8,94 (R$ 1,00 + R$ 7,94).

Em se tratando de dinheiro, para muita gente o que vem depois da vírgula é centavo... Se há três casas depois da vírgula, não há centavos; há milésimos. Como a situação é do tipo "casca de banana", muitas emissoras adotaram a tática de fugir do problema. Sabe como? Foi criada a leitura "escadinha", encerrada no último algarismo do valor do dólar: "O dólar fechou cotado a um real sete nove quatro". Sete nove quatro o quê?

O mais engraçado é que, quando o dólar fecha em algo como 1,790, os locutores persistem: "O dólar fechou cotado a um real, sete nove zero". Pelo jeito, esse pessoal acha que 1,790 é diferente de 1,79. Não é, caro leitor. Nesse caso, bastaria dizer que o dólar fechou a um real e setenta e nove centavos (sim, centavos).

Sabe por que pimpolhos e marmanjos vão mal quando se trata de centavos e de porcentagem? Porque a coisa já começa mal na leitura, que revela desconhecimento daquilo que se lê, o que, por sua vez, revela que o aprendizado e o ensino... A leitura ruim é sintoma da falta de aprofundamento na questão, fator que geraria o entendimento do processo (e não a decoreba).

O caro leitor já percebeu o que ocorre no título sobre a inflação? Releia-o, por favor. Se a prévia da inflação tem alta de 6,56% no ano, informa-se que o índice prévio aponta para 6,56% de acréscimo sobre o índice anterior. Suponha um índice anterior de 5% e uma alta de 6,56%. Qual seria o índice deste ano? Seria de 5,328% (é só fazer a conta).

O que ocorre não é nada disso. Para ir direto ao ponto, o título que traduziria a notícia seria mais ou menos assim: "Prévia da inflação aponta índice anual de 6,56%, superior ao teto da meta". Curto e grosso: o índice é ou será de 6,56%, o que não significa que a inflação terá alta de 6,56%, mas que, grosso modo, o custo dos produtos e serviços que norteiam o cálculo da inflação subirá 6,56%.

Não é por acaso que, há alguns anos, a Fuvest pediu aos candidatos uma conta simples: o quadrado de 10%. Sabe qual foi a resposta mais votada? Foi 100%, é claro. O quadrado de 10% é 1%, caro leitor. É só saber ler: 10% significa 10 em relação a 100, ou seja, 10:100, que é o mesmo que 10/100, que é o mesmo que 1/10, que é o mesmo que 0,1. Experimente multiplicar 1/10 por 1/10 (ou 0,1 por 0,1). O que dá? Dá 1/100, ou seja, 1%, ou seja, 0,01, ou seja...

Tudo começa pelo nome, não? Então tudo começa pelo entendimento dos nomes e das formas de expressão desses nomes, o que nada mais é do que o começo do entendimento de seja lá o que for. É isso.

More aos 88 anos o ator e diretor Sérgio Britto

Sergio Britto era um dos construtores do moderno teatro brasileiro, com a criação do Grande Teatro Tupi. Em entrevista ao Correio Braziliense em junho de 2009, Sérgio Britto, que na época tinha 86 anos, estava cheio de vigor e vida. Um vulcão, como ele definiu durante a reportagem. Nos últimos tempos, havia emendado projetos com linguagens e dramaturgias diferentes, numa produtividade impressionante. De 2002 até 2009, fez o exímio Longa jornada dia e noite adentro (do norte-americano Eugene O%u2019Neill), As pequenas raposas (da norte-americana Lilian Helman), Sergio 80 (monólogo do carioca Domingos de Oliveira), Outono e inverno (do sueco Lars Norén) e Jung e eu (também de Domingos Oliveira). 



COMENTO 
Perdemos uma referência do nosso teatro. Sérgio Brito não se destacou apenas por suas qualidade artíticas inquestionáveis, mas pela pessoa que era: perspicaz, inteligente, de linguagem agradável e culta, mas nunca rebuscada. Era uma espécie de ator pesquisador, não era o ator que apenas interpretava, era o ator que conhecia o que interpretava e do que falava. Adeus grande ator.

Roner Gama  



ENTREVISTA UMBERTO ECO- O MESTRE DOS LIVROS


FONTE Conteúdo livre

Casamento- HOMENS SENSÍVEIS


Estive no primeiro sábado deste mês, 3 de dezembro, num casamento coletivo, entre eles minha prima Angelita. Foi em um bairro chamado P-Norte ( um dia explico porque no DF os bairros tem nome de Letras e pontos cardeias), na cidade de Ceilândia -DF. Cheguei e o conúbio coletivo já havia iniciado.
A igreja Católica, na divisa entre duas quadras, um templo grande com teto forrado de material sintético, o corredor de acesso ao altar estava todo enfeitado com tapete vermelho, flores e folhas artificiais e todo aquele pano que desconheço o nome.Estava tudo muito bonito. 
Mas o que mais me chamou a atenção foi a emoção do noivos. Estavam mais emocionados do que as noivas. Pensei : nós homens mudamos. Hoje não temos medo e externar nossas fraquezas, nossas emoções.   
O noivo de minha prima é um rapaz simpático e diria até bonito, olha aí outro sinal de que nós homens mudamos , homem achando outro bonito, a noiva estava bela.

Bom, parabéns aos recém casados, alguns, e aos que renovaram os laços matrimoniais, entre estes minha querida prima Angelita.

Por Roner Gama

TEATRO - FARSA DA BOA PREGUIÇA

Estive no CCBB -DF ontem à noite para ver e ouvir a bela peça FARSA DA BOA PREGUIÇA. Estará em cartaz ainda hoje, e só hoje, no CCBB. Encontrei um trecho da peça no youtube:





Diferente de outras peças que assisti este mês com um humor chinfrim e  piegas a FARSA DA BOA PREGUIÇA traz a poesia de Ariano Suassuna aliada à música regionalista do nordeste o que cria um clima de envolvimento do público. Cada ato nos traz a expectativa da próxima encenação. Figurinos coloridos e atores entrosados , tudo torna a peça um conjunto agradável.

Por Roner Gama

Governador Paulista inicia programa de revitalização do Ensino Público-

Editorial Folha de São Paulo
Educação paulista

É, sem dúvida, auspiciosa a mobilização do governo de São Paulo com vistas a elevar o padrão do ensino público do Estado nos próximos 20 anos.

Em cerimônia realizada anteontem, o governador Geraldo Alckmin anunciou os compromissos de sua administração com um amplo programa para a área, cuja meta é colocar o sistema educacional paulista entre os 25 melhores do mundo até 2030.


Hoje, o Estado, numa simulação, estaria na 53ª posição -a mesma do Brasil- entre 65 países avaliados pelo teste internacional Pisa.


O projeto, intitulado "Educação - Compromisso de São Paulo", prevê iniciativas que vão do aperfeiçoamento de currículos à qualificação profissional do magistério.


Anuncia-se um novo modelo de escola para o ensino médio, com aumento da jornada estudantil, ampliação de algumas disciplinas e regime de dedicação integral por parte dos professores.


Para o conjunto dos docentes, promete-se um plano de carreira que deverá propiciar promoções salariais por meio de avanços na formação profissional e premiações baseadas no mérito.


A ideia é que o magistério paulatinamente se torne uma das carreiras mais bem remuneradas do Estado -segundo cálculos do governo, em duas décadas, um iniciante, a depender das circunstâncias, receberia cerca de R$ 9.400, em valores atuais.


No intuito de enfrentar as assimetrias presentes na rede pública, serão monitoradas as mais de 1.200 unidades avaliadas como "vulneráveis" do ponto de vista econômico, da infraestrutura e da aprendizagem.

Por fim, a intenção do governo é atrair a participação de famílias, empresas, sindicatos e outras entidades da sociedade civil no esforço de recuperação e aperfeiçoamento do ensino.

São intenções elogiáveis, num Estado que, sendo o mais rico da Federação, situa-se na média nacional em rankings de desempenho. Investir na melhoria da educação é hoje, ademais, uma recomendação que encabeça a agenda de dez entre dez analistas preocupados com o futuro do Brasil.


O que fará a diferença não é, portanto, a mera eleição do tema como prioridade, mas a consecução dos objetivos anunciados. O fato de que sejam "arrojadíssimos", como disse o secretário da Educação, apenas reforça a importância de a sociedade, nos próximos anos, acompanhar seu cumprimento. 
 
fonte: Conteúdo Livre 

O resgate de Elisa Lispector - RAQUEL COZER

O que a irmã de Clarice deixou para a história

RAQUEL COZER


RESUMO- Nove anos mais velha que Clarice, a também escritora Elisa Lispector guardou lembranças mais duras da infância e aprendeu a viver com as atenções voltadas para a irmã. De sua produção literária, menos ousada que a da autora de "A Paixão Segundo GH", destacam-se relatos biográficos como "Retratos Antigos", publicado agora.


SEIS DIAS ANTES da morte de Elisa Lispector, irmã mais velha de Clarice, o barco Bateau Mouche 4 afundou na baía de Guanabara.

O naufrágio que matou 55 pessoas na véspera do Réveillon de 1989 não tinha relação com Elisa -que morreu naquele 6 de janeiro com câncer e problemas renais-, mas foi responsável por uma triste ironia final em sua história.

No dia 7, o registro na imprensa carioca do óbito da autora de "No Exílio" (1948) foi ofuscado pelo anúncio, muito maior, da missa de sétimo dia da mais famosa vítima do Bateau Mouche, a atriz Yara Amaral, que até pouco antes estava no ar na novela "Fera Radical", da Globo. Com isso, quase ninguém àquela altura soube da morte de Elisa -como se não bastasse ela ter passado a vida sob a sombra de Clarice (1920-77).

Elisa hoje é mais lembrada porque "No Exílio", seu segundo romance, virou fonte para pesquisadores de Clarice. O livro, autobiográfico, segue uma jovem judia desde a fuga pela Europa com os pais e as irmãs até a adaptação ao Brasil, numa série de humilhações e misérias. Clarice, nove anos mais jovem, não teria como se lembrar do que a irmã conta ali -era um bebê na ocasião da fuga- e a parte de que se lembra ou soube depois ela preferiu nunca explicitar.

Como fonte histórica, porém, "No Exílio" tem a desvantagem de ser, a priori, uma ficção. O que por décadas apenas a família soube é que, nos anos 70, Elisa iniciou um resgate não ficcional da saga dos Lispector. É esse material, datilografado e rabiscado em 28 laudas -"esboços a serem ampliados", como anotou Elisa-, que a Editora UFMG lança nas próximas semanas. "Retratos Antigos" [org. Nádia Battella Gotlib, 144 págs., preço a definir] sai com dois cadernos de fotos, a maioria inédita. As mais antigas, dos avós de Elisa, são do início do século 20, na Ucrânia, então pertencente à Rússia.

LEGADO Elisa, que nunca casou nem teve filhos, dedicou aquelas páginas aos sobrinhos, em especial a Nicole -neta de Tania, a irmã do meio. O texto foi concebido para que, crescida, a sobrinha-neta soubesse o passado da família (leia trecho na página 8).

A história é contada a partir de desbotadas fotografias de um álbum "aristocrático", de "capa e contracapa trabalhadas em alto relevo sobre almofadas forradas de puro couro da Rússia", uma lembrança dos tempos em que os Lispector ainda resistiam aos pogroms, os ataques contra judeus e outras minorias, comuns na Rússia do início do século 20.

Entre descrições de personagens fotografados -ou não, caso do avô Shmuel, que "jamais permitiu ser retratado, em observância ao preceito religioso que proíbe a reprodução da figura humana"-, ela faz uma releitura histórica informal, abrangendo de costumes rurais russos à adaptação dos migrantes ao Nordeste brasileiro.

"É uma obra importante sobre a questão da imigração judaica no Brasil", afirma Wander Melo Miranda, professor de literatura comparada e diretor da Editora UFMG.

Parte do conteúdo já era conhecida desde que, em 2009, Benjamin Moser lançou a biografia "Clarice," (Cosac Naify). Durante as pesquisas, o americano teve acesso ao texto e dele reproduziu trechos e informações. A publicação na íntegra, agora, permite reconhecer no texto seu caráter de "não acabado, flagrado em momento mesmo de processo de elaboração, como se ainda houvesse coisas a dizer", como escreve Nádia na apresentação.

A pesquisadora esclarece ainda por que o material permaneceu tanto tempo inédito. Quando Elisa morreu, seu espólio passou à irmã Tania, que o manteve praticamente intocado. Com a morte de Tania, em 2007, sua filha, Márcia Algranti, e a neta, Nicole, abriram o acervo a pesquisadores.

Para além da temática judaica, "Retratos Antigos" ajuda a esclarecer ao menos um ponto nebuloso da biografia de Clarice: a doença que matou, lentamente, sua mãe. O texto explicita que Mania Lispector sofria de hemiplegia (paralisia parcial do corpo) e que esse estado resultou de um "trauma decorrente daqueles fatídicos pogroms".

Não é pequeno o impacto da paralisia da mãe na vida e obra de Clarice. Para ficar num raro exemplo explícito, já que em geral ela era mais discreta que isso, há a crônica "Restos do Carnaval". O texto lembra a noite em que ela, criança, precisou interromper seus preparativos para a festa e correr envolta em crepom pelas ruas de Recife atrás de remédios para a mãe. "Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim."

TRAUMA As informações trazidas por "Retratos Antigos", somadas a depoimentos e a trechos de "No Exílio", ajudaram Benjamin Moser a concluir que a mãe de Clarice contraiu sífilis após ser estuprada por cossacos -estupros coletivos eram comuns nos pogroms, e a paralisia é uma das evoluções possíveis da doença.

Na apresentação do novo volume, Nádia ignora a hipótese. Usa o termo genérico "trauma". À Folha ela detalha: "Hemiplegia é a paralisia parcial causada por um baque, no sentido físico, um soco, um tranco que ela levou". Embora admita ser historicamente possível, a biógrafa diz considerar a leitura de Moser "um equívoco". "A única pessoa que falou em estupro foi ele. Nunca ninguém falou isso."

Um primo de Clarice, Henrique Rabin, chegou, sim, a falar isso à própria Nádia, em 2004. Numa nota de rodapé da edição ampliada de "Clarice, uma Vida que se Conta" (Edusp, 2009), a biógrafa anota que Rabin "vale-se de sua experiência de médico para lançar a hipótese de que o processo infeccioso pode ter sido proveniente de sífilis contraída, possivelmente, durante os pogroms, quando mulheres eram violentadas (...)".

Mas é só uma nota de rodapé. Pode-se dizer que antes de Moser -mais confortável, como estrangeiro, para abordar temas delicados para a família- ninguém falou tão abertamente sobre isso. Era uma dor familiar "muito bem guardada", como disse à Folha a canadense Claire Varin, renomada estudiosa de Clarice. Ela conta ter ouvido a história de Olga Borelli, amiga íntima da escritora.

"Clarice contou a Olga. Nunca usei a informação porque não cabia nas minhas pesquisas. Acho a doença da mãe mais relevante que sua causa para entender Clarice", diz Claire, que Moser entrevistou para a biografia. Para ele, a dor de saber dessa violência também joga luz sobre textos da escritora.

Na família Lispector, ninguém contestou oficialmente as afirmações da biografia de Moser.

PRIMOGÊNITA Se a autora de "Laços de Família" (1960) motiva discussões que para alguns extrapolam sua obra, Elisa permanece pouco estudada.

A primogênita de Pinkhas e Mania Lispector lançou o primeiro livro, "Além da Fronteira", em 1945, aos 34 anos, dois anos após a estrondosa estreia de Clarice, com "Perto do Coração Selvagem". Depois, publicou mais seis romances -o quarto, "O Muro de Pedras", considerado o seu melhor, recebeu prêmios da editora José Olympio e da Academia Brasileira de Letras- e três volumes de contos.

Afora o que hoje está em sebos, a obra de Elisa quase desapareceu. Um único romance, "No Exílio", está à venda pela José Olympio, em reedição de 2005. Na ocasião, a editora comprou também os direitos de "O Muro de Pedras", mas as vendas fracas de "No Exílio" a fizeram "repensar o projeto da autora na casa", segundo a gerente editorial, Maria Amélia Mello.

Mas a primeira das irmãs Lispector também angariou admiradores. O mais fiel deles deve ser Jeferson Masson, 47, que há 20 anos reúne um riquíssimo material para algo que pode ser dissertação de mestrado, ainda sem orientador, ou biografia, ainda sem editora. "Quando lia Clarice, mesmo que doesse, eu encontrava uma luz. Na Elisa eu não via saída. Os romances dela me entristecem muito."

Masson, hoje fiscal da prefeitura do Rio, diz que teve de adiar os planos acadêmicos por questões financeiras. Em 1988, pouco antes de concluir a graduação em letras na UFRJ, pensou num estudo sobre literatura e testemunho centrado no desenraizamento dos personagens traumatizados da autora.

Chegou a falar com ela por telefone naquele ano. Do pequeno apartamento em que vivia sozinha na rua Tonelero, em Copacabana, ela o atendeu com um fiapo de voz. Aos 77 anos, sofria com diverticulite e uma fratura mal consolidada num joelho. Achou que o rapaz do outro lado da linha queria saber de Clarice, como recorda Masson.

"Minha pesquisa é sobre você", ele lembra ter dito à Elisa. Avisou que iniciaria no ano seguinte, 1989, ao ela pontuou, resignada: "Não acho que eu tenha muito tempo pela frente." Meses depois, Masson soube pela crítica Bella Jozef (1926-2010) que Elisa tinha morrido. Também para ele -que hoje tem uma cópia do obituário no "Jornal do Brasil" citado no início deste texto- tinha passado despercebido.

BUROCRACIA Outro admirador de Elisa, segundo Masson, foi Jarbas Passarinho, acriano alçado à política nacional durante a ditadura militar. Funcionária pública desde os anos 30, Elisa foi secretária de Passarinho quando este assumiu o Ministério do Trabalho, nos anos 60. Então ela se aposentou, e o ministro a chamou no gabinete e lhe ofereceu uma caneta de ouro pelos serviços prestados.

A burocracia que enfrentou nas três décadas de funcionalismo foi motor para a produção ficcional. A relação com a irmã caçula também. Foi o escritor Renard Perez, amigo de ambas, quem contou a Jeferson Masson e Benjamin Moser, em diferentes ocasiões, que Elisa chorou quando ele, após ler os originais do romance "Corpo a Corpo" (1983), perguntou se eram Clarice e ela retratadas numa relação de marido e mulher. (Aos 84 anos, Perez atendeu ao telefonema da Folha a sua casa, no Rio, mas disse que sua memória está fraca.)

Publicado após a morte de Clarice, "Corpo a Corpo" trata de uma dolorida relação de amor. Na vida real, Clarice amava Elisa, que também a amava, mas a irmã mais velha se sentia sufocada, segundo vários testemunhos, pela presença tão mais impactante da outra.

Elisa era "até atraente", como diz Moser, mas Clarice era mais; a primogênita tinha jeito para escrever, mas não era genial como a caçula. Isso tornava também Elisa mais reclusa. "Clarice tem o passado difícil, mas era linda, genial, casou, teve filhos. A história dela teve suas recompensas. De Elisa, que ainda por cima lembrava as dores da fuga da Ucrânia, não se pode dizer o mesmo", diz Moser.

Sobre a produção literária, a canadense Claire Varin avalia que a de Elisa "não é tão rica". "Ela era uma romancista mais tradicional, ficava na psicologia dos personagens, enquanto Clarice ultrapassava psicologia, consciente e inconsciente, ultrapassava tudo."

"Elisa é mais interessante que boa", avalia Nádia. "A obra ousa menos tanto no modo de contar como nos temas." Mesmo assim, a biógrafa de Clarice agora quer se voltar para Elisa. Para depois de "Retratos Antigos", planeja uma fotobiografia da autora de "O Muro de Pedras", assim como fez com a de "A Paixão Segundo GH".

Para isso, recorrerá ao acervo de Elisa, hoje dividido entre a sobrinha Márcia Algranti e o Instituto Moreira Salles do Rio, que recebeu em 2007, de Nicole, material ainda não investigado. O acervo no IMS-RJ inclui 127 itens de correspondência e 98 "de produção intelectual", segundo levantamento prévio, entre os quais o datiloscrito "Pelos Caminhos da Cidade Estranha", que não se sabe se é inédito.

ENTREVISTA O tema da perseguição aos judeus nunca transpareceu em Clarice como em Elisa, embora a primeira é que tenha se tornado uma das autoras da diáspora mais celebradas do mundo.
Nas entrevistas de Clarice, o assunto também aparece de forma vaga, inclusive nas perguntas. Talvez por ela não tratar disso em seus textos, os entrevistadores sempre achavam melhor repisar questões sobre como começou a escrever e se de fato não gostava muito de ler.

Isso fica claro na reunião de entrevistas e reportagens "Encontros - Clarice Lispector [Azougue Editorial, org. Evelyn Rocha, 192 págs., R$ 29,90], que terá lançamento no sábado, no IMS, dentro da programação do "Hora de Clarice" -evento similar ao recente "Dia D" de Drummond. Um raro questionamento sobre a percepção dela acerca do judaísmo no que escrevia é feito em reportagem de 1971 do "Correio do Povo". "Conscientemente, não [percebo]", diz a autora.

Das 16 conversas, destaca-se uma descoberta por acaso em 2002: a primeira entrevista que deu na vida, ainda como estudante de direito, em 1941, meses antes de começar a escrever "Perto do Coração Selvagem". Quem encontrou o material foi o jornalista paulistano Vilmar Ledesma, quando foi à Biblioteca Mário de Andrade folhear exemplares (que quase se desfaziam) da revista "Diretrizes", fundada em 1938 por Samuel Wainer.

Diz o texto: "E vem uma jovem a quem abordamos. Chama-se Clarice Lispector e tem traços da raça eslava. É terceranista e acede prontamente em responder às perguntas do repórter." Retratada de saia xadrez e bolsa debaixo do braço, ela já mostrava peculiar atitude. Questionada sobre que escritor da época se compararia com Machado de Assis (1839-08), conclui: "Em minha opinião, seria mais fácil superá-lo do que igualá-lo. Machado tinha muita personalidade. Como romancista, ele não é seguro, não obedece a normas; por isso me parece fácil superá-lo".

Como Clarice viveu fora do Brasil de 1944 a 1959, a entrevista acaba sendo a única antes de um longo hiato até o início dos anos 60, quando saiu "Laços de Família".

A reunião guarda bons momentos para além da famosa entrevista de 1974 ao "Pasquim" (quando, ao falar da língua presa, comenta que não pode pronunciar a palavra "aurora", "senão todo mundo cai para trás") e da ainda mais conhecida última entrevista, à TV Cultura, em 1977 (disponível no YouTube).

É o caso de um curioso diálogo entre duas reportagens. Na primeira, de 1969, do "Jornal da Tarde", o repórter escreve que Clarice "engordou muito" e que "mãos tremem ao acender o cigarro mentolado".

Três anos depois, ao receber uma jornalista o "Correio da Manhã", ela deixa perceber o quanto pode ser ferida a vaidade de uma estrela: "Imagine que um repórter veio aqui me entrevistar e, além de dizer que eu estava gorda, disse que as minhas mãos tremiam. As minhas mãos não tremem. [...]Você acha que eu estou gorda?".

Sobre Elisa, em depoimento de 1976 ao Museu da Imagem e do Som, Clarice demonstra consciência de que a irmã passou mais agruras do que ela na infância. "Eu perguntei um dia desses à Elisa, que é a mais velha, se nós passamos fome, e ela disse que quase", conta, como quem entende a sorte de precisar perguntar isso.

A história é contada a partir de desbotadas fotografias de um álbum "aristocrático", uma lembrança dos tempos em que os Lispector ainda resistiam aos pogroms na Rússia
 
"Elisa é mais interessante [como testemunha histórica] que boa [como escritora]", avalia Nádia. "A obra dela ousa menos tanto no modo de contar quanto nos temas"
 
Jarbas Passarinho era fã de Elisa. Ela trabalhou com ele nos anos 60 e, ao se aposentar, Elisa foi chamada ao gabinete dele, que lhe ofereceu uma caneta de ouro pelos serviços prestados
 
Elisa era "até atraente", diz Benjamin Moser, mas Clarice era mais; a primogênita tinha jeito para escrever, mas não era genial como a caçula. Isso tornava também Elisa mais reclusa

Mariza - Malmequer


Mal me quer a solidão
Bem me quer a tempestade
Mal me quer a ilusão
Bem me quer a liberdade
Mal me quer a voz vazia
Bem me quer o corpo quente
Mal me quer a alma fria
Bem me quer o sol nascente
Mal me quer a casa escura
Bem me quer o céu aberto
Bem me quer o mar incerto
Mal me quer a terra impura
Mal me quer a solidão
Entre o fogo e a madrugada
Mal me quer ou bem me quer
Muito, pouco, tudo ou nada..

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico


ELIANE BRUM

A PARÁBOLA DO TAXISTA E A INTOLERÂNCIA. REFLEXÃO A PARTIR DE UMA CONVERSA NO TRÂNSITO DE SÃO PAULO. A EXPANSÃO DA FÉ EVANGÉLICA ESTÁ MUDANDO “O HOMEM CORDIAL”?

 

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”.

Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

 - Você é evangélico? – ela perguntou.

 - Sou! – ele respondeu, animado.

 - De que igreja?

 - Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.

- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?

- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.

- De que religião você é?

- Eu não tenho religião. Sou ateia.

- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.

- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.

- Deus me livre!

- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).

- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?

- Por que as boas ações não salvam.

- Não?

- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.

- Mas eu não quero ser salva.

- Deus me livre!

- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.

- Acho que você é espírita.

- Não, já disse a você. Sou ateia.

- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.

- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?

- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse?

(Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.

- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.

Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.


fonte: Conteúdo Livre

CLARICE LISPECTOR

Há Momentos

Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.



O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

Clarice Lispector

A chatice escrita .

Levantei hoje com uma vontade de escrever, na verdade eu queria era falar, conversar com alguém. Sabe aqueles dias em que você quer se expressar? Mas como não havia ninguém resolvi que o melhor era escrever Meti-me na frente da tela, e iniciei o ato Eram palavras esparsas,de inicío, depois já era um derramar meláncolico de minhas angústias e pensei comigo: ainda bem que não havia um humano ouvinte hoje para mim. Estou um saco de chatice hoje. Roner Gama

Shakespeare sketch

GORILLAZ- STYILO


Love, Electricity, Shockwave central,
Power on the motherboard, yes
Push up, Overload, Legendary,
Heavy glow, Sunshine, Thunder roll,
Keep it all together
Yes the lantern burn, burn it easy
And broadcast, so raw and neatly
Thunder roll, sunshine,
Work it out
Overload overload overload
Coming up to the overload overload overload
Coming up to the overload overload overload
Coming up to the overload overload overload
Coming up to the
Oh stylo, (juice)
Go forth,
Blossom in your soul
When you know your heart is light
Electric is the love
When the maco flies (a giant fish)
Up from the bottom in your eyes
Then I know the twilight skies
Are not so broken hearted (from the end of the line)
It's love of electric
It'll be flowing on the streets,
Night after night
Just to get through the week
Sometimes its hard
Right now
Single cell, (juice)
Out of depression,
Rise above,
Always searching,
If I know your heart,
Electric is the love.
Theres only one way
Let it pray a little while longer
Its got a way of pass through man and woman
In another world
In another world in the universe
Right now
Here is what we got to do
It's its love of electric,
It'll be flowing on the streets,
Night after night
Just to get through the week
Sometimes its hard
That's what I'm talking about
Love electricity,
Shockwave central,
Power on the motherboard, yes
Push up, Overload, Legendary,
Heavy blow,Sunshine, Thunder roll,
Keep this on
Yes the lantern burn, burn that easy,
And broadcast so raw and neatly,
Thunder roll, Sunshine,
Work it out
Right now

GORILLAZ- SOU FÃ! 10 anos.

Por Roner Gama

As part of our birthday celebrations, we're taking a wander down the cultural cul de sac that is a decade of Gorillaz. We'll be sharing a few snapshots from an earlier time and to start with we've pulled out this plum from the archives: Gorillaz made massive, at the first all-live, all-animated performance of Clint Eastwood at the Brits, 2002.




FESTIVAL INTERNACIONAL DE BONECOS

Estive hoje , domingo, no Festival Internacional de Bonecos que ocorreu no complexo cultural FUNARTE. Assisti , junto com minha filhinha Luísa, a peça "Suma daqui, menino!" da Cia Patética e Teatro de La Plaza. Em seguida demos uma volta nas barraquinhas e assistimos a um pedaço da peça do Mestre Gilberto Calungueiro, na tenda principal. O que percebi é que havia muitos estrangeiros e poucos nativos. Ao que parece o teatro de bonecos ainda não caiu no gosto popular. E olha que este evento já está no seu 5º ano aqui no DF.

Algumas imagens:
  

HOJE


Hoje acordei , acordei com vontade de não ser 
Queria que hoje não existisse, queria o vazio
queria o nada, queria o inaudito
queria o ocaso

Hoje , só hoje , acordei assim
sem querer me ver , sem querer ter a mim
não queria esse dia, mas ei-lo aí
nao queria o dia de hoje

Hoje me senti sem sentidos 
não escutei, não senti, não vi nada em mim
vi o mundo vasto e vazio
vi a multidão individual

Hoje, só hoje, eu desejei não ser eu
não ser ninguém, cegar o gigante
e passar invisível pela vida
pela multidão individual

Por Rsg

FLORBELA ESPANCA-ALMA PERDIDA- NA voz de Miguel Falabela.

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

OCASIÃO

Não é o fazer, não é o não fazer
É a circunstância motivadora
À ação ou  omissão
Do meu ver e não viver
Do meu ver e viver
Por que o viver de cada vivente
É aquilo que lhe basta


RSG


CONTARDO CALLIGARIS - Saques, arrastões e "ressentiment"

A turba que afugentou Luís 16 e Maria Antonieta de Versailles, em 1789, pedia pão porque estava com fome.
A turba de Londres em 2011 pedia bugiganga eletrônica e roupa de marca -artigos que, aos olhos de muitos, parecem não ser de primeira necessidade. Ou seja, aparentemente, a violência da turba de 1789 talvez fosse justificada, mas a de 2011 não é.
No domingo passado, na Folha, Eliane Trindade escreveu sobre meninas de rua que praticam arrastões em São Paulo. Elas procuram produtos para alisar o cabelo, celulares cor-de-rosa e lentes de contato verdes para mudar a cor dos olhos.
Alguém estranha que elas não prefiram uma comida boa ou uma roupa quente? Como disse uma menina, o que elas querem é ser bonitas (claro, nos moldes da cultura de massa). Será que, como a turba de Londres, elas seriam culpadas por não desejarem bens "de primeira necessidade"?
Não penso assim -e não é por indulgência com assaltos e arrastões. É porque, na nossa época, as "futilidades" são, no mínimo, tão relevantes e tão necessárias quanto era o pão em 1789. Explico.
Em 1789, as diferenças eram de casta. Salvo filósofos perdidos na turba, as pessoas reunidas no protesto queriam manifestar sua indignação e satisfazer sua fome, mas não pensavam em mudar a ordem social e subir na vida. Na época, aliás, ninguém subia para lugar nenhum, as pessoas ocupavam o lugar que lhes cabia por nascimento.
À força de indignação e raiva, as coisas foram longe, até que ruiu o próprio regime de castas. Desde então, o que confere status não é mais o berço (nobre ou não) no qual a cegonha nos depositou, mas fatores que não dependem só do acaso: trabalho, riqueza, estilo, virtudes morais, cultura etc.
"Quem somos" depende de como conduzimos nossa vida e (indissociavelmente) de como ela é avaliada pelos outros. Para obter o reconhecimento de nossos semelhantes (sem o qual não somos nada), os objetos que nos circundam ajudam mais do que a barriga cheia; eles têm uma função parecida com a dos paramentos das antigas castas: declaram e mostram nosso status -se somos antenados, pop, fashion, sem noção, ricos, pobres ou emergentes, cultos ou iletrados.
Podemos achar cafonas os objetos roubados pelas meninas e pelos saqueadores (o consumo de massa desvaloriza seu consumidor), mas o que importa é que eles roubaram objetos que lhes eram necessários para existir, para ser "alguém" no mundo. Isso não justifica nem saques nem arrastões; mas vale notar que, na nossa época, as futilidades são, no mínimo, tão relevantes e necessárias quanto era o pão para o pessoal de 1789.
Outro aspecto. Houve quem detestou os saqueadores londrinos por eles não estarem interessados em alterar a ordem social: roubaram para ter as mesmas coisas que a gente e, portanto, chegar exatamente ao lugar que nós ocupamos agora. Para usar uma expressão clássica em filosofia, os saqueadores seriam um caso de "ressentiment".
Nietzsche tomou o termo (e parte de seu sentido) de Kierkegaard. Modernizando, a ideia é a seguinte: "Não tive sorte ou, então, sou burro e preguiçoso, acho chato estudar e gosto de dormir. Sou invisível socialmente e invejo o bem-sucedido, que se pavoneia com seus objetos. Não quero me sentir culpado de minha condição; prefiro, portanto, acusar dela o bem-sucedido. Com isso, viverei minha mediocridade como se fosse o resultado da violência dos privilegiados, que gozam de tudo e não deixam nada para mim".
Enfim, para se consolar, o ressentido inventa uma moral (social ou religiosa) pela qual, no futuro, seu perseguidor será destronado pela revolta ou queimará nas chamas do Inferno.
Nos bares da "facu" de filosofia, nos anos 1970, colegas de direita acusavam a revolução proletária de ser apenas um projeto ressentido. Respondíamos que a revolução não era ressentida, porque ela não queria vingança, não queria substituir a burguesia, apropriando-se de seus brinquedos: seu intuito era inaugurar um mundo diferente, onde todos gozaríamos de novos prazeres.
Desse ponto de vista, os saqueadores de Londres, eles sim, seriam simplesmente uns ressentidos, não é?
Pode ser, mas, antes de responder, recomendo paciência: o que hoje parece apenas "ressentiment" pode ser a faísca de mudanças que nem suspeitamos. Afinal, o pessoal de 1789 só pedia pão, e olhe o que aconteceu...

ccalligari@uol.com.br

fonte: Conteúdo Livre

PSEUDOIMBECILIDADE E PSEUDOINTELIGENCIA


As crianças criam a "pseudoimbecilidade" como forma de se defenderem. Fazem-se passar por estúpidas quando  estão num contexto que não podem nem aceitar nem modificar. Leio  isto no livro A AMBIGUIDADE  de Simona Argentieri, que sairá brevemente no Brasil

         Serão só as crianças?

         Paro a leitura e   penso. O que isto teria a ver com o conceito de "servidão  voluntária" de que falava, há mil e  quinhentos anos, o filósofo Boethius  no decadente Império Romano? Tem gente que aceita silenciar-se, moldar-se, ser subalterno ou se comporta como os animais que se mimetizam com o ambiente para não serem notados. É' um tipo de esperteza, esperteza que consiste em parecer estúpido.

         Como variante disto, penso também na questão das pessoas  que se inserem numa ideologia que está na moda. É' uma maneira de se exibir usando uma carapaça charmosa. E isto me leva logo a uma outra categoria que poderíamos criar- a do "pseudointeligente". Uma pessoa pode, por exemplo, passar por " inteligente" nos meios acadêmicos e nos bares simplesmente recitando o receituário de uma certa filosofia ou de um autor que entrou na moda. Pode passar por alguém que está "por dentro" quando na verdade realmente ele está por dentro, ou seja,  é um parasita da ideologia dominante,

           Se o "pseudoimbecil" se retrai ocultando a sua verdadeira opinião, como casca, para se defender ( mecanismo que Winnicott estudou), o segundo avança criando uma máscara de falso ajustamento, e quando sozinho  não sabe  o que fazer da angústia e da insatisfação que esse comportamento deixa residualmente.

         Os regimes autoritários, as inquisicões, as patrulhas ideológicas obrigam o indivíduo a esconder sua verdadeira opinião. Realmente é um risco desafinar no "coro dos contentes". Alguns perdem a cabeça, o emprego, o espaço nos jornais.

         A  "pseudointeligência"  que é uma maneira sábia de ser covarde, nos leva a consumir o que está na ordem do dia,  seja a moda, a roupa, a música, a arte e até a  comida. Os argumentos usados, já que  são gerados por um "falso ego" -o da máscara, repetem a vulgata, o discurso alheio. Poder-se-ia dizer que neste caso, são pessoas que não têm  "redação própria"  ou "autonomia de vôo" .

         A coisa é tão complexa e sutil e, às vezes, tão paradoxal  que a cultura contemporânea tem incentivado a "pseudointeligencia"  de formas novas. A ascensão das nulidades, o culto ao mercado, a necessidade de seduzir as classes C, D e E  estão embaralhando não só sujeitos e objetos, mas sobretudo os conceitos.


24.08.2011-Estado de Minas/Correio Braziliense
fonte: http://www.affonsoromano.com.br/blog/

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