TEXTO PARA REFLEXÃO: "A ARTE DE MORRER".

A ARTE DE MORRER.

“Mas como se ririam então, e como pasmariam de nós aqueles homens imortais! Como se ririam das nossas loucuras, como pasmariam da nossa cegueira, vendo-nos tão ocupados, tão solícitos, tão desvelados pela nossa vidazinha de dois dias, e tão esquecidos e descuidados da morte, como se fôramos tão imortais como eles? Eles sem dor, nem enfermidade; nós enfermos, e gemendo; eles vivendo sempre; nós morrendo; eles não sabendo o nome à sepultura; nós enterrando uns aos outros. Eles gozando o mundo em paz; e nós fazendo demandas e guerras pelo que não havemos de gozar. Homenzinhos miseráveis (haviam de dizer), homenzinhos miseráveis, loucos, insensatos, não vedes que sois mortais? Não vedes que haveis de acabar amanhã? Não vedes que vos hão-de meter debaixo de uma sepultura, e que de tudo quanto andais afanando e adquirindo, não haveis de lograr mais que seis pés de terra! Que doidice, e que cegueira é logo a vossa? Não sendo como nós, quereis viver como nós?
Assim é: Morimur ut mortales: vivimus ut immortales [Morremos como mortais: vivemos como imortais]; morremos como mortais que somos, e vivemos como se fôramos imortais.
(...)
Ora, senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer, e que somos imortais; saibamos usar da morte, e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais.”

Pe. Antônio Vieira. A Arte de Morrer. 2º sermão da 4ª feira de Cinza. Ano de 1673,  séc. XVII.

Outra visão sobre Ninfomaníaca.

Para a sociedade, “vício em sexo” é doença. Para Lars Von Trier, apenas mais uma das verdades inconvenientes que a burguesia não quer escutar, para não se sentir doente.


Por Bruno Lorenzatto*
Joe, a personagem principal de Ninfomaníaca, não é louca ou alienada, mas seu comportamento ou modo de vida é patologizado pela psiquiatria. Sua doença? O sexo compulsivo. Numa época em que a norma ou o normal significam nada menos que a produção e multiplicação das patologizações, das classificações intermináveis dos modos de vida como doenças possíveis, Joe é a resistência da vida que não se deixa capturar pelo discurso médico-psiquiátrico, isto é, em certo sentido, o discurso moral. De maneira que seus modos de subjetivação (isto é, como Joe se constitui como sujeito moral, racional, sexual etc no interior da sociedade) questionam o padrão, a norma, a pretensa igualdade entre os seres: a concretude da existência contra a abstração metafísica, tal é a luta que está em jogo em Ninfomaníaca.
Talvez seja preciso lembrar de Nietzsche — que subverte a dicotomia saúde x doença. Para a sociedade o “vício em sexo” é uma doença. Para Lars Von Trier é apenas mais uma das verdades inconvenientes que a burguesia não quer escutar (para não se sentir ela mesma doente).
Joe está além da moral porque não se preocupa em seguir as prescrições mais fundamentais impostas pelo código moral do Ocidente. Duplo crime, dupla marginalidade: ser mulher e ser “viciada” em sexo. A ética de Joe se dá precisamente onde não há mais ética pré-definida — este parece ser o ponto de vista delineado pelo filme. Ao afirmar sua diferença ou singularidade, Joe conjura a “Razão Universal”, recurso amplamente utilizado desde o iluminismo para prescrever normas e condutas morais. No entanto, a transgressão de Joe engendra uma ética possível: “Torna-te o que tu és”.
(Me pergunto se não seria possível uma abordagem feminista do filme: Joe, uma mulher: é o sujeito que fala. Joe, uma mulher: é o sujeito do desejo.)
Lá onde o espaço dos afetos, dos acontecimentos brutos e do “real” predominam, a história de Joe supera a ordem das representações – não há coerência ou ações previsíveis. O sujeito cede lugar às experiências contraditórias, limites e improváveis que o constituem, e ao mesmo tempo anulam sua aparente unidade, de modo a produzir uma multiplicidade de “Joes” irredutíveis. Espaço subjetivo sem dúvida perigoso e desconcertante, no qual a vida da personagem radicalmente se desdobra.
Importante observar: mesmo a culpa manifestada pela personagem, em decorrência de seus “desvios”, é ambígua, culpa performada ou teatralizada, em todo caso, provisória. Embora chame a si mesma de “mau ser humano” (essa fala se repete algumas vezes), deixa claro: a sociedade que a patologiza, Joe afirma, é ela mesma doente.
Lars Von Trier não oferece respostas ou soluções. Ele não se preocupa em responder as aporias, que atravessam a vida contemporânea, tematizadas em Ninfomaníaca. Sua abordagem é a da problematização, da abertura dos paradoxos que formam historicamente a sociedade ocidental. A sexualidade, o crime, o desvio, a norma, a doença, a verdade, a afirmação da vida, ou a negação da vida – tais são os temas que percorrem o filme. Se há uma tomada de partido (e creio que há) na estética de Ninfomaníaca, esta é: escutemos com atenção os paradoxos que constituem a sociedade – os mesmos que nos subjetivam.
Bruno Lorenzatto é licenciado em História e mestre em Filosofia pela PUC-Rio
fonte:http://outraspalavras.net/blog/2014/03/26/outra-visao-sobre-ninfomaniaca/.

MEU FILME DO FERIADÃO: "PIAF- UM HINO AO AMOR".

PIAF,  UMA HINO AO AMOR.

Aproveitei o feriadão, deste carnaval de 2014, para assistir “PIAF”, há tempos que pretendia vê-lo, mas as diversas ocupações e preocupações não me permitiam.
O filme é um relato da vida e carreira da cantora francesa Edith Piaf, tem como  como diretor Olivier Dahan  e estrelado por Marion Cotillard no papel de Edith.
Prende-se ao relato cinematográfico desde as primeiras cenas, estas não seguem o roteiro tradicional de início, meio e fim. Inicia-se pelo declínio físico da protagonista, intercalada com o relato dos primórdios de sua trágica vida.
Essas sequências de cenas que se alternam entre fim, meio e início levam o espectador a uma comparação entre os eventos que se sucederam ao longo da vida da protagonista e sua trajetória artística. Toda a película tem como centro a pessoa de Edith, ela é estrela, o sol ao redor do qual giram outros atores secundários. Os cenários são sempre alternados entre a claridade e a meia-luz, nunca a escuridão completa. Edith era uma mulher das noites parisienses, a diva dos amantes, das casas noturnas.
PIAF, o pequeno pássaro, a diva que viveu intensamente, tanto a miséria quanto o glamour, uma bela história de vida e de como a vida forja os grandes artistas. Uma ótima dica de filme.

Leiam mais informações no site: <http://www.ochaplin.com/2013/02/piaf-um-hino-ao-amor-cinebiografia-de-edith-piaf-com-tons-de-grandiosidade-traz-uma-marion-cotillard-irretocavel.html>


Por Roner Gama

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